Joana

Olá!

Bem-vinda ao a(m)arte blog, que nasce da vontade de contar a minha história, como mulher portadora da síndrome Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser, mas não só. É o ponto de encontro de várias histórias e informação útil que vai ajudar todas as mulheres, em especial as que na sua viagem levam o peso da (in)fertilidade.

Um espaço inteiramente de partilha e dedicado a nós mulheres, que nos devemos amar com as nossas (im)perfeições.

a(m)arte é a arte de ser mulher, de nos amarmos na plenitude.

Bom caminho.

Bom caminho.

Olá,

Como tens passado, espero que bem.

Já de férias? Por aqui sim, e é sobre isso que te quero falar,  a minha última aventura.

Já andava alguns anos para fazer o caminho de Santiago, não sou católica praticante, logo esse não era o motivo que me movia. Acho que a vontade veio depois de ter ido a Fátima em 2012. Passar dias a caminhar para mim é  um desafio, em vários sentidos: - físicos: dores musculares, peso da mochila, bolhas; - psicológicos: superação, assertividade, automotivação, descomplicar, superior a tudo isto é a oportunidade de estar comigo, com os meus pensamentos e sempre em contacto com a terra/natureza. 

Mas voltando a Santiago.
A decisão estava tomada, um dia vou, depois a dificuldade era com quem, todos queriam ir mas depois acabava sempre sozinha, porque não conseguia coordenar agenda com os potenciais amigos desta aventura. Ir sozinha estava fora de questão, apesar de eu dizer que ia sozinha (mas tinha receio), lá em casa a ideia não foi bem aceite “ sozinha não vais”. Depois pensei em duas amiga especiais, falei primeiro com a MA e ela disse logo “Joana eu vou”, depois falei com a SV que também alinhou. Já tinha companhia para esta aventura. Não podia ter escolhido melhor as minhas companheiras, são mulheres especiais como eu, temos histórias parecidas. Somos as três portadoras da síndrome MRKH, a vida encarregou-se de nos juntar e nós temos a responsabilidade de alimentar esta amizade.

O ponto de encontro foi a estação de comboio de Ermesinde, com destino a Valença, onde íamos passar a noite, para dar início à nossa caminhada. Que começou era 5h da manhã, depois de uma noite super mal dormida, lá fomos nós cheias de vontade. Começamos a caminhar ainda estava de noite, quando chegamos à ponte de Tui (Espanha), já de dia, demos conta que o nosso hotel ficava muito longe do local de partida, a Fortaleza em Valença. O que fez com que nesse dia não conseguíssemos chegar à etapa que tínhamos em mente, porque acabamos por fazer 8km a mais. A MA já acusava algum cansaço e dor, então optámos por terminar em Porriño a etapa daquele dia. Seguimos para o albergue público onde já havia fila, entrámos e faltavam ser atendidos dois casais, entretanto o senhor do albergue, que era super simpático e amável, coloca um papel a dizer “completo”, começamos a olhar umas para as outras e pensámos, “oh não, aqui não temos dormida e caminhar já dói”, o senhor reparou na cara de pânico de todos os peregrinos que ainda não tinham sido atendidos e diz “está completo convosco”. Ah… ufa, já tínhamos dormida para aquela noite, que ia ser a nossa primeira experiência nos albergues. Primeira etapa feita, seguimos para o segundo desafio, acordamos igualmente cedinho e lá fomos nós. Este dia ia ser especial porque eu fazia 33 anos. Eu estava muito feliz e as minhas companheiras contribuíram muito para isso, numa das paragens (para o xixi) fizeram-me uma surpresa, acenderam duas velas e cantaram-me os parabéns. 

Neste dia conhecemos o Zé que foi o nosso anjinho, acompanhou-nos durante alguns kms, cantou novamente os parabéns connosco e ainda nos ajudou no albergue. Ele ia para Caldas del Rey, nós ficamos em Arcade. Nesta pequena Vila havia uma praia fluvial, onde fomos dar uns mergulhos que ajudaram a recarregar baterias. Sem saber o terceiro dia ia ser o pior de todos, desta vez saímos por volta das 6h, noite cerrada e subidas irregulares nos primeiros kms, o Zé no dia anterior já nos tínhamos avisado. A etapa era Barro, caminhamos muito e começamos a apanhar chuva, mas nada de grave comparando com os outros dias. A chegar ao nosso limite, já nos doía tudo. Passamos junto a uma casa onde um pequeno cão se dirige a nós e a sua dona, uma senhora idosa de bengala pergunta: Vão para Caldas?, nós respondemos: Não, vamos para Barro. E a senhora responde: Barro, fica lá atrás, já passaram. Não queríamos acreditar… estávamos KO, já eram 4 e tal da tarde e estávamos “perdidas”. Amavelmente a senhora indicou-nos um albergue, apenas tivemos de fazer um desvio porque este ficava fora do caminho. Assim como o albergue de Barro, por isso, nunca o termos encontrado. Tudo resolvido, chegamos a Briallos, o funcionamento daquele albergue era chegar e ocupar uma cama (camarata), fomos ao primeiro andar e só havia uma cama disponível, um peregrino disse-nos que junto à entrada havia mais quartos, corremos até eles e tínhamos dois quartos, um com uma cama e outro com duas, parecia que estavam à nossa espera. Instalamo-nos, mas com algum receio porque eram quartos para pessoas com mobilidade reduzido, havendo a possibilidade de aparecer alguém com esta condição. Fomos tomar um duche e jantar, enquanto aguardávamos que alguém fosse ao albergue receber e verificar os quartos. Assim que a senhora chegou fomos logo perguntar se podíamos usar aqueles quartos, e podíamos. Pronto, mais uma noite com dormida assegurada. Já te disse que neste dia estávamos KO? Tivemos de fazer massagens umas às outras, eu tive de tomar analgésicos, tinha de garantir que no dia a seguir estava com força e sem dores para caminhar. E assim foi, preparada para a quarta etapa, as dores musculares tinham passado. 

O destino era Padrón, desta vez saímos já era de dia, começamos o percurso bem, mas passado alguns kms começou a chover e foi assim até chegarmos ao local onde íamos dormir. Foi a nossa primeira experiência debaixo de chuva, não eram salpicos, eram mesmo pingos grossos acompanhados de algum vento. Neste dia não tínhamos albergue e ainda não tínhamos falado disso, até percebermos que o tempo estava a passar e a chover cada vez mais e nós sem guarida. Eu e a SV estávamos a achar alguma piada mas a MA estava fula connosco. Começamos a ligar para os albergues, hotéis e estava tudo cheio, Padrón é um dos locais de dormida e com aquele temporal pior. Entretanto reencontramos o Clarkson, peregrino Dinamarquês que conhecemos no albergue em Briallos, ele ia para o Hotel Scala, que fica na aldeia a seguir a Padrón, local onde queríamos ficar e onde ele ainda tinha feito uma reserva num hotel, assim sendo, disse para ficarmos com o quarto dele. Respirámos de alívio, pois já tínhamos dormida, agora era chegar até lá e pedir camas extras. Assim foi, chegámos e dissemos que tínhamos uma reserva no nome x, cujo o rapaz diz que tinha sido cancelada. Dissemos que era impossível, para ver melhor, mostrou-nos as reservas e de facto a “nossa reserva” já não constava. Olhámos umas para as outras… E agora. Não temos dormida, chove muito e caminhar já custa. Falamos com o rapaz e explicamos a situação e ele lá nos conseguiu ajudar, ligou para o hotel Rosália, onde havia apenas um quarto, com cama de casal e uma extra, ou seja, para 3 pessoas. Neste dia ficamos num hotel, a senhora que nos recebeu foi muito atenciosa, secou-nos os ténis, estes vinham ensopados e não os tínhamos como secar. Ter dormido no hotel soube bem e foi importante para a última etapa. Íamos para o quinto dia de caminhada, ansiosas por chegar, mas ao mesmo tempo saudosas, por estarmos a chegar ao fim. Afinal estávamos a passar por momentos tão bons, o caminho estava a ser tão bonito, sempre em contacto com a natureza.

No último marco, tiramos a frase do dia “Difícil não é caminhar durante um mês seguido. Difícil é voltares a agarrar o teu velho bastão e colocares novamente a tua mochila às costas para regressares a casa.”, um ritual nosso, vê mais abaixo a frase de cada etapa, e colocámos uma pedrinha em cima do marco. E assim chegamos ao nosso destino, Santiago de Compostela, foi emocionante, é um lugar mágico, fui invadida por vários sentimentos como, missão cumprida, consegui, tudo está ao nosso alcance, mais um momento de superação, no meio de tantos pensamentos a mensagem foi: leva e traz contigo amor e aprende com a experiência (erros), observa e contempla o que te rodeia, esforça-te que o universal encarrega-se do resto. 

Depois das fotografias em grupo, sozinhas, ao ambiente… fomos carimbar o nosso passaporte e seguimos para o albergue, ensopadas! Nessa noite não saímos, pedimos umas pizzas e comemos lá, o que foi bom porque ainda ajudamos um rapaz que vinha de bicicleta desde França e queria ir para o Porto. Ele era engraçado, tinha de preparar o roteiro ou ter uma ideia das aldeias onde tinha de passar porque o telefone dele ainda era de teclas. Assim, ele tendo uma ideia dos locais, depois ia perguntando às pessoas. 

Conhecemos pessoas muito curiosas ao longo do caminho, cada pessoa que se aventura a pé até Santiago leva consigo algum motivo. Eu levei vários, na esperança de o caminho me dar algumas respostas, e deu. Ter tempo para pensar, estar desconectada da azáfama do mundo e passar dias a caminhar na natureza foi inesquecível. Vale a pena fazer o caminho, eu não vim a mesma pessoa e custou-me muito voltar às rotinas.

Frase inspiradora de cada etapa: 

1 Etapa Valença / Porriño - “O verdadeiro caminho não consiste apenas em andar por entre os bosques, mas também em caminhar dentro de nós com os olhos da verdade.”

2 Etapa Porriño / Arcade - “Errar é apenas construir uma oportunidade para um novo caminho.”

3 Etapa Arcade / Briallos - “O caminho é muito mais do que o chão que pisas: o caminho és tu mesmo.”

4 Etapa Briallos / Padrón - “O impossível é sempre o teu maior amigo quando assim o permites.”

5 Etapa Padrón / Santiago de Compostela - “Difícil não é caminhar durante um mês seguido. Difícil é voltares a agarrar o teu velho bastão e colocares novamente a tua mochila às costas para regressares a casa.”

Se achares por bem, desafia-te, sente a energia do caminho e a riqueza interior que este te dá.

Simbolo_amarte_rodape.png
Tirem-me tudo, menos a força!

Tirem-me tudo, menos a força!