Joana

Olá!

Bem-vinda ao a(m)arte blog, que nasce da vontade de contar a minha história, como mulher portadora da síndrome Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser, mas não só. É o ponto de encontro de várias histórias e informação útil que vai ajudar todas as mulheres, em especial as que na sua viagem levam o peso da (in)fertilidade.

Um espaço inteiramente de partilha e dedicado a nós mulheres, que nos devemos amar com as nossas (im)perfeições.

a(m)arte é a arte de ser mulher, de nos amarmos na plenitude.

A história dos moldes.

A história dos moldes.

Olá espero que a vossa semana esteja a ser boa!

Hoje vou escrever sobre relações fortes, porque durante algum tempo tive uns amigos de quem fui muito fiel, como em qualquer amizade.

Tive contacto com um desses amigos no dia da operação, o Dr. Godinho de Matos deixou-o dentro de mim, porque a técnica que usaram para a minha operação foi vaginoplastia de Wilflingseder, que consiste em retirar uns centímetros de intestino delgado. Este é tratado e essa membrana é envolvida num molde, que vai criar o canal vaginal. O molde, que referi acima, é o amigo de quem estou a falar, e que só conheci pessoalmente no dia que fiz o levante, que tomei banho e me ensinaram como fazer, ou seja, como o tinha de lavar e colocar e qual a melhor roupa interior a usar, de forma a que ficasse confortável e o molde não saísse. Aprendi, também, que quando fosse à casa de banho não o podia deixar cair na sanita, nem tocar em lado nenhum e que tinha sempre de o lavar. Na escola a diretora foi super prestável, sabia da minha situação e deixou-me usar a casa de banho dos professores, pois era a única que tinha bidé, que passava a sanita durante aquele tempo.  Andei com esta relação forte, literalmente, durante seis meses, 24 horas, entrava e saía de casa com ele. Ia para todo o lado com ele, até para o carnaval! Depois desta aventura, passei a ser amiga do Dildo, depois de um molde adaptado e ajustado à necessidade e com alguma estética, passei para aquela coisa…

Recordas-te de ter falado da história do dildo no post 4,Testemunho de Andreia Trigo? Vou contar agora!

Depois dos 6 meses do molde mole, era altura de passar para um mais rijo para dormir todos os dias nesta fase inicial, depois só de vez em quando, até ter um molde com mais personalidade, ou seja, tivesse relações sexuais frequentemente. Isto é o sonho de qualquer Rokitansky, é arrumar os moldes e nunca mais lhes tocar.
Quando começamos a falar neste molde o Dr. Godinho disse-me, “tens de ir a uma sexshop, porque este molde só há lá, tem as características x e y, depois nós cá tratamos do resto. Se quiseres pede ajuda à Andreia, porque ela sabe como é e onde comprar.” Falei com Andreia e lá fomos nós a uma sexshop que havia na Rua Conde de Redondo, não sei se ainda existe… Entramos e lá andamos a ver qual seria o melhor molde. Nunca tinha entrado numa sexshop e aquela experiência foi desconfortável. Vinha tão desolada, que no regresso a casa o comboio parou no Cacém, as pessoas saíram todas e eu pensei “que estranho, sai tudo aqui”. O comboio arranca e começo a perceber que aquele transporte ia para Meleças e não para Sintra, estação onde queria sair...
Passado uns dias lá fomos à consulta, eu e o meu amigo, para darmos início a uma relação por tempo indeterminado - na altura não tinha namorado, ou melhor tinha uma espécie.
Entrei triste no consultório, levava o dildo ainda na embalagem e quando o Dr. Godinho o tira da caixa começou na brincadeira, para aliviar os ânimos. Entretanto mandou-me deitar na marquesa para irmos medir e cortar o molde, para ficar à minha medida, de forma a sentir-me confortável. Mas nesse momento eu sentia-me tão desconfortável, o Dr. tentava animar-me, mas eu não me aguentei e as lágrimas caiam-me pela cara. Tenho este dia tão presente na minha memória! Era o desconforto da situação, era saber que agora tinha de andar com um pénis, porque não existe um molde ajustado para quando se faz a transição do molde flexível para o rijo. Eu nunca tinha tido relações e ter de colocar aquilo, foi desolador. O molde ter aquela forma fez com que não o colocasse todas as vezes que devia, era desconfortável porque tinha de o preparar, i.é, colocar um lubrificante para introduzir sem dor e causar nenhum dano, todo o canal ainda estava muito frágil, ainda sangrava, então tinha de ter muito cuidado. As noites eram terríveis, não conseguia dormir bem, não descansava porque acordava muitas vezes devido à pouca flexibilidade e sensação de aperto na zona pélvica. No final correu tudo bem e o canal vaginal não desceu.

Atualmente tenho os meus amigos guardados em casa dos meus pais numa bolsinha no meu quarto, espero nunca mais os usar, pois trazem-me recordações de duras aprendizagens e crescimento.

Se tiver de voltar a uma sexshop que seja para coisas mais animadas e divertidas.

Simbolo_amarte_rodape.png
Desabafos num dia de sol.

Desabafos num dia de sol.

Dia do amor.

Dia do amor.