Joana

Olá!

Bem-vinda ao a(m)arte blog, que nasce da vontade de contar a minha história, como mulher portadora da síndrome Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser, mas não só. É o ponto de encontro de várias histórias e informação útil que vai ajudar todas as mulheres, em especial as que na sua viagem levam o peso da (in)fertilidade.

Um espaço inteiramente de partilha e dedicado a nós mulheres, que nos devemos amar com as nossas (im)perfeições.

a(m)arte é a arte de ser mulher, de nos amarmos na plenitude.

Testemunho de Andreia Trigo.

Testemunho de Andreia Trigo.

Andreia Trigo é uma das mulheres da qual (eu) me orgulho em ter como amiga e irmã de coração. Já tinha falado nela no segundo post, foi uma das pessoas que me acompanhou quando descobri a minha condição. No dia em que fui operada lá estava ela para me dar a mão. Atualmente não mora cá, mudou-se para o Reino Unido há uns anos e por lá ficou, mas sempre que vem a Portugal estamos juntas. Já é uma tradição nossa! Os nossos encontros são tão bons, tão nossos. Sim, porque só vamos as duas :) Falamos da nossa doença, de como nos sentimos, dos receios, dos sonhos, do que queremos continuar a fazer na área da infertilidade. Admiro muito o seu percurso, aprendo muito com a Andreia. No nosso último encontro falei-lhe do blog e disse-lhe que tinha muito gosto em ter o seu testemunho na rubrica “Dar Voz”, um espaço dedicado às história de mulheres inspiradoras.



A Andreia tem 35 anos, é coach, investigadora, formadora e autora na área de fertilidade, lançou em junho de 2017 o livro “The Formula To Not Giving a F**k About Fertility”.

Fica a saber mais sobre esta grande mulher!

“Antes de mais quero agradecer à Joana por me ter convidado a escrever para blog. Sei que é um projeto que nasceu de uma circunstância difícil, mas que levou a um desenvolvimento pessoal e a um caminho de vida que não poderia ter sido antecipado. O nosso caminho cruzou-se quando ainda éramos jovens, precisamente quando ambas fomos diagnosticadas com MRKH.

Tal como a Joana, eu também tinha esperado pela primeira menstruação sem sucesso e foi aos 16 anos de idade que os testes e investigações médicas começaram. Lembro-me claramente do dia do diagnóstico, o dia em que me foi dito que nunca poderia ter filhos. Esse foi o dia em que a minha vida mudou. Existe uma separação distinta do ‘antes’, em que tudo era possível, e do ‘depois’ em que senti o chão sair debaixo dos meus pés, em que me tiraram um pedaço de coração que nunca voltaria a ter, em que milhares de perguntas ocuparam a minha cabeça mas que a dor do momento impedia que saíssem da minha boca. Estas questões colocavam em causa a minha própria identidade enquanto pessoa, o meu papel de jovem mulher, na família e na sociedade. Colocavam em causa a minha crença religiosa e tantas coisas que eu tinha ‘aprendido’ com a sociedade que seria ‘normal’. Com esta idade ainda não tinha pensado se queria ter filhos ou não, mas imaginava que um dia faria parte do meu caminho. Afinal de contas eu tenho uma família grande e as minhas memórias de vida familiar são bastante positivas. Mas essa escolha foi-me retirada antes de eu ter a hipótese de escolher. Senti-me diferente. Não era igual a todas as outras jovens da minha idade que podiam sonhar e fazer planos de uma vida ‘normal’ que incluía ter filhos, senti-los crescer dentro de mim, reconhecer os meus traços e os traços do meu futuro marido nos seus olhos ou no seu sorriso. Aqui começou o processo de luto, pela perda do filho que nunca tive. E como é difícil fazer o luto de algo que só existe no nosso coração...

Logo a seguir ao diagnostico, decidi ser operada para reconstruir a vagina. Isso era algo que eu podia controlar e me iria fazer sentir mais normal. A cirurgia foi no dia 11 de Junho 2001 no Hospital de Santa Maria em Lisboa. Estava rodeada de família, amigos e uma equipa clínica fantástica.

E não demorou muito tempo após a cirurgia para decidir que era essencial para o meu ajustamento psicológico que esta jornada não fosse feita em segredo. Eu queria não só ser uma melhor pessoa por causa do meu diagnóstico, mas também ajudar outras mulheres que se sentissem perdidas em caminhos semelhantes. Juntei-me a um grupo online com mulheres de todo o mundo, para partilhar experiências. Conheci também muitas mulheres fantásticas de todo Portugal, tínhamos o nosso próprio grupo de apoio e eu escrevia O Jornalito, que era enviado por carta, com alguma informação sobre assuntos que nos interessavam. Numa altura em que não existia Facebook, Instagram, Whatsapp ou outras plataformas, O Jornalito era algo que nos ajudava a perceber que não estávamos sozinhas neste caminho da infertilidade.

O apoio familiar, do psicólogo e ainda de alguns livros foi fundamental. Acredito que não teria conseguido sobreviver aos primeiros anos de infertilidade se não fosse por este apoio. E um dia, em que estava no meu quarto, a pensar nas minhas circunstâncias, senti uma inspiração divina que me fez tomar a decisão mais importante da minha vida: “Se eu consigo ultrapassar isto, não há nada na vida que eu não consiga alcançar”

Essa decisão foi tomada no meu íntimo, de tal forma que nesse momento, tornou-se parte de mim, do meu ser. Por causa dessa decisão acabei o curso de enfermagem, tirei dois mestrados, e estive sempre envolvida em vários projetos na área da saúde. Quem me conhece sabe que tenho uma força dentro de mim que me predispõe para aproveitar a vida e estar sempre em busca de novas ideias. Foi só 15 anos após o diagnóstico de infertilidade, e de alcançar tantas coisas fantásticas na vida que percebi que a minha missão é ajudar outras pessoas em situações semelhantes. E tantos anos depois d’O Jornalito, nasceu inFertile Life, com o objetivo de apoiar mulheres e homens para que consigam criar a família dos seus sonhos independentemente das dificuldades que lhes sejam colocados. A minha visão é ajudar pessoas em todo o Mundo, não só na Europa onde ainda temos acesso a médicos e a enfermeiros, mas em países mais desfavorecidos onde o acesso é restrito e a infertilidade é ainda mais tabu. Quero fazer a diferença ao melhorar as taxas de fertilidade no Mundo. Quero que muitas famílias cresçam precisamente por causa do meu trabalho nesta área. E se a minha infertilidade é o preço a pagar para que avanços sejam feitos e muitos outros consigam ter filhos, então que assim seja. O significado na minha vida, vem de ajudar outros a ter significado na deles quando crescem as suas Famílias.

Espero que tenhas gostado do testemunho da Andreia! Só posso agradecer-lhe a ajuda que me deu em todos os momento (tivemos momentos tão caricatos... tenho de vos contar a história do dildo (que foi durante meses o meu molde, para o canal vaginal não descer), hoje rio-me, no dia da consulta, que tive de o levar, chorava).  

Obrigada de coração, Andreia, por estares sempre desse lado e continua a dar Voz por todas nós. E sabes... Sorte de quem se cruza contigo nesta viagem.

O nosso encontro em dezembro de 2018.

O nosso encontro em dezembro de 2018.

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Vamos falar sobre…

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Conhecer mulheres inspiradoras.

Conhecer mulheres inspiradoras.